Por Raquel Balceiro, D.Sc.

Eutenho certeza eu você já ouviu essa frase do título deste texto ou mesmo a reconheceu. É uma pérola colocada por Lewis Carroll na boca do Gato Cheshire, num diálogo fabuloso com Alice, no livro “Alice no País das Maravilhas” (1):
Alice perguntou: Gato Cheshire… pode me dizer qual o caminho que eu devo tomar?
Isso depende muito do lugar para onde você quer ir — disse o Gato.
Eu não sei para onde ir! — disse Alice.
Se você não sabe para onde ir, qualquer caminho serve.
Este é realmente um livro cheio de boas reflexões, mas essa nos ajuda bastante a refletir sobre nós mesmos: Para onde queremos ir? Sabemos? Ou apenas deixamos “a vida nos levar”, como diria Zeca Pagodinho (editado: um dos meus leitores atentos viu que eu tinha trocado as bolas)?
Desde que eu entendi que precisava começar a planejar a minha transição de carreira, tenho feito, todos os anos, uma autorreflexão a respeito do caminho que vou trilhar no ciclo seguinte, entendendo os objetivos que eu tenho e os conhecimentos que eu quero desenvolver para alcançá-los. Isso é fruto de dois processos de coaching individual pelo qual passei, um deles com a querida Angela Vega, que me ensinou a importância real do planejamento.
Para isso, eu tenho utilizado um instrumento (YearCompass), do qual eu gosto bastante, combinado a outro, advindo da gestão do conhecimento, que eu chamo de meu canva de Personal Knowledge Management (PKM). Vou falar sobre eles, agregando alguns outros que eu descobri recentemente.
O YearCompass é um livreto que nos permite refletir sobre os aprendizados relacionados ao ano que passou, entendendo padrões de comportamentos que podem ter nos ajudado ou prejudicado tanto na vida pessoal quanto na vida profissional. A partir destes aprendizados, ele nos conduz a projetar o ano seguinte. Uma vez que você começa a utilizá-lo ano a ano, você começa a construir um bom arcabouço de conhecimentos sobre você mesmo que não precisa compartilhar com ninguém (a não ser que queira). Os autores do livreto recomendam 20 minutos dedicados ao trabalho para preenchê-lo completamente, mas eu não acho assim tão trivial, ao contrário. Eu mesma costumo levar mais tempo pensando nas perguntas. Para encontrá-lo, basta fazer o download aqui.
Uma vez planejado o ano seguinte, eu começo a pensar nos conhecimentos que eu já disponho e naqueles que eu ainda preciso desenvolver. Ou ainda, nos conhecimentos que eu não quero desenvolver e que vão me forçar a renunciar a algum destes objetivos. A primeira vez que eu tomei conhecimento de uma análise do tipo foi por meio do livro “Metacompetência — uma nova visão do trabalho e da realização pessoal”, do Eugênio Mussak (2). Mussak trazia neste livro o conceito de SWOT Pessoal, que é traduzido pelo diagrama a seguir.

Feita essa análise, normalmente procuro focar a minha atuação nos quadrantes 2 e 4, que são aqueles que eu tenho certeza que me levarão mais rapidamente ao estado de Flow, já comentado neste texto aqui.
O curioso é que outro dia li um texto (3) que a Sofia Esteves escreveu para a Exame, na qual ela menciona que uma pesquisa da Strava mostra que “a maioria das pessoas começa a desistir das suas resoluções de Ano Novo lá pelo dia 19 de janeiro — o que foi batizado como “Quitter’s Day””. Ela chama de “desistência prematura” e eu me vi muito persistente, por ter incluído todo o meu planejamento no meu Planner Pessoal, buscando seguir à risca aquilo que eu havia me proposto a fazer.
Uma vez que eu termine de revisar o meu SWOT pessoal, que já construí há muitos anos e no qual não inclui apenas os conhecimentos que quero/preciso desenvolver, mas também as competências que tenho e que me faltam, passo à análise mais aprofundada destes conhecimentos. Em 2017, escrevi meu primeiro texto no LinkedIn, no qual eu falava dos Níveis de Consciência sobre o Saber, matriz proposta por Nick Milton (4) que eu utilizo muito no meu planejamento anual de autodesenvolvimento. É essa matriz que eu utilizo no detalhamento dos conhecimentos que eu quero desenvolver.

O detalhamento dessa matriz encontra-se no artigo que mencionei acima. É claro que essas ferramentas combinadas podem não ser as ideais para você. Pode ser que você prefira uma única ferramenta, onde consiga enxergar todos esses aspectos de si mesmo num só documento.
Em sua dissertação para a conclusão do MBKM (5), Luciana Martins Oliveira da Silva e Victor Couto Alves apresentaram um Canva para Personal Knowledge Management (PKM) que pode ser útil a você.

Esse modelo de Canva para PKM foi uma combinação que os autores propuseram a partir dos modelos de dois outros autores da área (Clark, 2013; Jarche, 2014 apud Silva & Alves, 2019) e pode ser do seu interesse. Você acessa a monografia aqui.
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O meu PKM costuma ficar colado na parede atrás da tela de meu computador e é nele que eu vou me espelhando para ver que assuntos preciso estudar, e que novas demandas surgem ao longo do ano que precisam ser incorporadas em meu cronograma. Esse aqui foi o que fiz no final de 2020, visando aprendizados em 2021.

Hoje, já estou finalizando a formulação do mapa de 2022, incluindo nele o que já foi um aprendizado relevante em 2021. Vale ressaltar que precisamos conhecer o nosso mindset para entender que mecanismos próprios precisamos alterar para conseguir colocar o nosso plano em prática. Mas o que é esse tal de mindset?
Carol Dweck, em seu livro “Mindset: a nova psicologia do sucesso” (6), diz que uma simples crença a respeito de nós mesmos orienta grande parte das nossas vidas. Uma parcela significativa do que acreditamos ser a nossa personalidade é gerada por esse mindset. Traduzindo, mindset é a configuração da mente, um conceito que busca entender a predisposição psicológica de uma pessoa que prioriza determinados pensamentos e padrões de comportamento para, então, propor e desenvolver uma nova abordagem. Ele pode ser, segundo Dweck, um mindset fixo ou de crescimento.
A visão de mundo de cada pessoa não depende somente daquilo que enxerga com os seus olhos. Cada indivíduo vai receber as informações de uma forma e, como resposta, interpretá-las de acordo com o conjunto de ferramentas que tem disponível. Para Dweck, é de fundamental importância as opiniões que o indivíduo adota a respeito de si mesmo para o seu relacionamento com o mundo, capazes de afetar suas escolhas, determinando a maneira que cada um leva a sua vida.
Por exemplo, existem aqueles que, por acreditarem possuir alguma dificuldade de aprendizado, busquem se provar suficientemente inteligente o tempo todo. E, também, os que por acreditarem que não são capazes, nem ao menos vão tentar um novo desafio. Para a autora, os mindsets diferem da seguinte forma:
- mindset fixo — define aqueles que acreditam que suas qualidades são imutáveis, ou seja, suas habilidades e talentos natos são os fatores mais importantes, que vão determinar seu sucesso ou fracasso;
- mindset de crescimento — indica uma maleabilidade maior das características, por meio da crença de que as capacidades inatas são apenas potencialidades que podem ser desenvolvidas (ou não) através do esforço.
Diante dessa constatação feita por Dweck, descobri algumas ferramentas que podem ser úteis na análise das nossas forças e fraquezas, dos nossos mindsets:
- Exploração das suas forças: você encontra aqui para download;
- Análise do custo x benefício da mudança de mindsets: você encontra aqui para download;
- Plano para mudança de hábitos (e consequentemente, adoção de um mindset de crescimento): você encontra para aqui para download.
E, então, consegui despertar em você algum insight? Comenta o artigo e conta para mim.
___________________
Referências:
(1) CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. São Paulo, Cosac Naify, 2009.
(2) MUSSAK, Eugênio. Metacompetência — uma nova visão do trabalho e da realização pessoal. São Paulo: Ed. Gente, 2003.
(3) ESTEVES, Sofia. Está chegando o dia em que abandonamos as resoluções de Ano Novo. Disponível em: <https://exame.com/blog/sofia-esteves/esta-chegando-o-dia-em-que-abandonamos-as-resolucoes-de-ano-novo/>. Publicado em 17/01/2022.
(4) MILTON, Nick. Exploring the concept of Organizational Learning, NM Review, Sept Oct 2008.
(5) SILVA, Luciana Martins Oliveira da; ALVES, Victor Couto. A GESTÃO DO CONHECIMENTO PESSOAL E SEU PAPEL NO APRENDIZADO CONTÍNUO E SUCESSO NA ERA DAS ACELERAÇÕES. Monografia. Rio de Janeiro: COPPE/UFRJ, 2019.
(6) DWECK, Carol. Mindset: a nova psicologia do sucesso. São Paulo: Objetiva, 2017.
(7) BALCEIRO, Raquel. Níveis de consciência no aprendizado individual. Disponível em: <https://www.linkedin.com/pulse/n%C3%ADveis-de-consci%C3%AAncia-aprendizado-individual-raquel-balceiro/>. Publicado em agosto, 2017.
