Sou psicólogo clínico e psicoterapeuta há muitos anos. Desde o início da pandemia – e com a decretação do isolamento social – vi aumentar consideravelmente o número de pessoas necessitando de suporte emocional para superar o clima de medo e insegurança que se instalou em todo o mundo.
Os idosos fazem parte do grupo mais vulnerável aos sintomas do coronavírus, por terem um sistema imunológico deficiente e fragilidades no sistema cardiorrespiratório. Vão com mais frequência aos hospitais que as pessoas mais jovens, o que os tornam mais propensos aos riscos de contaminação. Lamentavelmente, o índice de mortalidade entre os idosos chega a 14%.
Acompanhei de perto a rotina de alguns desses idosos no período de pandemia. Eles se trancaram em casa e passaram a seguir rigorosamente o protocolo de isolamento social para se sentirem mais protegidos. Em pouco tempo, o desespero e a monotonia se somaram à sensação de abandono e solidão, trazendo os sintomas de depressão.
A busca de atendimento psicológico foi o pedido de socorro daqueles que já não agüentavam mais vivenciar todos os dias uma rotina marcada pelos cuidados com a higienização, o isolamento social, o medo da contaminação e o distanciamento dos amigos e familiares.
Identificadas as demandas desses idosos, estabelecemos uma abordagem para trabalhar a questão do isolamento e da ansiedade provocada pelo medo da contaminação e da morte. O primeiro passo foi reforçar os contatos com a rede de apoio, por meio de telefonemas, chamadas de vídeo e participação em “lives” da família. Também incentivamos as atividades em casa, como fazer bordados, aprender a tocar instrumentos musicais, a leitura de livros, assistir a filmes interessantes e, principalmente, evitar os noticiários fatalistas nas redes de rádio e TV.
A cada encontro semanal, reforçamos as estratégias para lidar com os conflitos inerentes ao convívio diário em clima de isolamento, que propicia os atritos e, muitas vezes, causa situações de confronto e discórdia. Estimulamos a valorização dos momentos de intimidade em família e a possibilidade de vivenciar momentos que antes não eram possíveis por causa dos diversos compromissos sociais e de trabalho, que frequentemente levavam ao distanciamento.
Para complementar, estimulamos os exercícios físicos dentro de casa, de preferência orientados por profissionais “on line”, ou as pequenas caminhadas pelas áreas externas das casas e internas dos condomínios, onde fosse possível fazê-lo mantendo o distanciamento social.
Os profissionais da área de saúde também foram profundamente afetados pela pandemia. A contaminação tornou-se realidade para dois clientes, médicos em hospitais de grande porte, que contraíram o vírus e tiveram que passar pela dolorosa experiência de sofrer com as dores no corpo, febre, perda do olfato, falta de ar e cansaço. Um deles, inclusive, esteve internado em uma Unidade de Terapia Intensiva por alguns dias.
Passado o período de convalescênça e já fisicamente restabelecidos, eles se viram na situação de retornar à rotina profissional e estar novamente no mesmo ambiente onde foram infectados, muitas vezes sabendo das limitações dos equipamentos de proteção individual e sem a garantia de estarem imunes a uma possível recontaminação.
Esses profissionais se sentiam inseguros e emocionalmente fragilizados, traumatizados por tudo que passaram com a doença e com dificuldades para retomar seus plantões. Alguns desses plantões incluíam o atendimento aos pacientes graves, internados na UTI exclusiva para contaminados pelo coronavírus, situação que justificava os temores e a insegurança que sentiam, pelo risco iminente de nova contaminação.
O que podemos observar é que estes não são casos isolados. Em todas as partes do mundo, os profissionais de saúde são os principais infectados e contabilizam um elevado número de óbitos, por estarem expostos a uma grande quantidade de vírus (carga viral), por mais tempo que as demais pessoas. Parte deles está na faixa etária dos grupos de risco, além de apresentarem comorbidades como diabetes, doenças cardíacas e respiratórias, entre outras.
Esses profissionais devem ser tratados com o máximo de cuidado porque, apesar de terem todas as informações de como se prevenir contra a contaminação, vivenciaram o sofrimento de contrair a doença e se sentiram completamente indefesos durante o período de tratamento – e impotentes para curarem a si próprios.
A abordagem consistiu em reforçar a autoconfiança dos profissionais e, ao mesmo tempo, trabalhar os sintomas do estresse pós-traumático, desconstruindo as experiências negativas vivenciadas durante a doença e reafirmando a capacidade de se manterem saudáveis, seguindo os protocolos de segurança para evitar uma nova contaminação.
Inicialmente, o temor de uma recaída impediu que estes médicos retornassem de imediato aos plantões nas unidades de terapia intensiva destinadas aos pacientes infectados pelo coronavírus. O estímulo aos serviços iniciais em outras áreas do hospital, longe da ala dos doentes graves, serviu como estratégia descondicionante para que eles pudessem, gradativamente, retomar a rotina de trabalho e cumprir os plantões de acordo com as escalas de serviço.
Pudemos observar, por outro lado, que a experiência de passar pela experiência da doença trouxe para esses profissionais uma nova forma de olhar seus pacientes. Em seu discurso, fazem referência à uma transformação dessa percepção, agora mais empática e humanizada.
Concluímos que, tanto em relação aos idosos quanto aos profissionais de saúde, a pandemia e a nova ordem social imposta pelo isolamento trouxeram (pelo menos para alguns) a possibilidade de se reinventarem enquanto indivíduos, integrantes de uma família e membros de instituições responsáveis pela saúde da população.
Quanto a mim, psicólogo e ser humano, posso dizer que este momento está sendo capaz de trazer possibilidades únicas de crescimento pessoal, profissional e social, na medida que traz desafios para a forma de me relacionar comigo mesmo e com aqueles que me cercam.
Com certeza, para muitos, o mundo não será mais o mesmo daqui em diante.
Luis Paulo Ferreira Dias
